O congresso do MPLA que se avizinha não deve ser lido como um momento de redefinição política, mas como um exercício clássico de autopreservação de um partido que já não governa a partir da hegemonia social, mas sim do controlo institucional. Quem esperar deste congresso uma rutura, uma abertura real ou uma redefinição profunda do modelo de governação corre o risco de confundir desejo com análise.
O MPLA chega a este congresso mais fraco do que aparenta. A erosão eleitoral é real, contínua e estrutural. A vitória formal em 2022 não apagou o facto politicamente mais relevante daquele processo: a consolidação, no imaginário urbano e juvenil, da ideia de que o partido governa apesar do voto, e não necessariamente por causa dele. Esse é um dano que não se resolve com discursos, nem com congressos, nem com reconfigurações cosméticas.
Por isso, o congresso não será um espaço de debate estratégico aberto, mas um momento de alinhamento interno. O MPLA precisa, acima de tudo, de mostrar coesão. Um partido que controla o Estado não pode dar sinais de divisão, porque a divisão interna é o único fator que historicamente abriu brechas reais no seu poder. Assim, qualquer renovação que venha a ocorrer será cuidadosamente calibrada: suficiente para produzir a imagem de modernização, insuficiente para alterar os centros reais de decisão.
O núcleo duro permanecerá intacto. A relação orgânica entre partido, orçamento do Estado, sistema judicial, aparelho eleitoral e forças de segurança não será questionada, porque é precisamente essa arquitetura que permite ao MPLA continuar a vencer eleições mesmo quando perde adesão social. O congresso não existe para discutir esse modelo, mas para o reafirmar.
Onde haverá movimento é na camada intermédia. Assistiremos, muito provavelmente, à promoção de quadros mais jovens, mais tecnocráticos, menos associados à guerra e mais aptos a comunicar com uma sociedade urbana, digital e cansada de narrativas históricas. Trata-se de uma oxigenação controlada, não de uma transição geracional real. O partido muda rostos, não muda lógica.
Este congresso também deverá consolidar uma leitura estratégica já em curso: o MPLA deixou de tentar esmagar toda a oposição e passou a administrar o pluralismo. O surgimento e a tolerância seletiva de novos partidos, a manutenção da UNITA como principal força oposicionista formal, mas isolada, e a fragmentação do eleitorado urbano fazem parte de uma mesma engenharia política. Não se trata de abertura democrática, mas de gestão do risco político.
A mensagem central que sairá do congresso não será dirigida ao eleitor comum, mas às elites internas, aos parceiros internacionais e aos centros de poder económico e militar: o MPLA continua no controlo, o sistema está estável e não haverá aventuras. Num contexto regional e global marcado por instabilidade, essa mensagem é vista, externamente, como um ativo.
O problema é que estabilidade institucional não equivale a legitimidade social. O congresso pode alinhar o partido, mas não resolve o desemprego juvenil, o custo de vida, a exclusão urbana nem a crescente descrença no processo eleitoral. Esses fatores continuam a acumular tensão fora das salas climatizadas onde se realizam os congressos.
Em última instância, este congresso será menos um ponto de viragem e mais um adiamento do inevitável. O MPLA ganha tempo, ajusta a engrenagem e prepara 2027 com o mesmo pressuposto de sempre: controlar o processo para compensar a perda de adesão. A questão que fica em aberto não é se o partido sairá unido do congresso, sairá. A verdadeira questão é se o país continuará disposto a confundir unidade partidária com legitimidade política.
E essa resposta já não depende apenas do MPLA.
