O cenário descrito pelo Agita News sugere uma mudança de paradigma que teria impactos diretos na economia. Se a retórica de André Ventura se transformar em política de Estado, os acordos econômicos entre Portugal e Angola enfrentariam os seguintes desafios:
1. Revisão de Linhas de Crédito e Garantias do Estado
Atualmente, o governo português garante linhas de crédito (via COSEC) que facilitam a exportação e o trabalho de empresas portuguesas em Angola.
- O Risco: Um governo liderado ou influenciado por Ventura poderia condicionar estas garantias à transparência dos concursos públicos em Angola.
- Consequência: Empresas como a Omatapalo ou a MCA, que frequentemente colaboram com parceiros portugueses, poderiam ver o acesso a financiamento europeu bloqueado se as críticas de “corrupção e adjudicação direta” forem formalizadas em relatórios oficiais de Lisboa.
2. Fiscalização de Capitais e Investigação de Lavagem de Dinheiro
A posição de Ventura contra a elite do MPLA poderia levar a uma maior pressão sobre as autoridades bancárias e judiciais em Portugal (como o DCIAP).
- O Foco: Fortunas de dirigentes angolanos depositadas em bancos portugueses ou investidas no imobiliário de luxo em Lisboa e Cascais poderiam ser alvo de investigações mais rigorosas.
- O Impacto: Figuras como Edeltrudes Costa ou Silvestre Tulumba, mencionados na sua denúncia, poderiam enfrentar dificuldades em transacionar capitais em território português, gerando uma retaliação imediata de Luanda contra empresas lusas em solo angolano.
3. Crise nas Obras Públicas e Construção Civil
O setor da construção é o mais sensível. Se André Ventura adotar uma postura de confronto com o governo de João Lourenço:
- Adjudicações em risco: O governo angolano poderia excluir empresas portuguesas de novos concursos como represália diplomática.
- Substituição de Parceiros: Angola poderia acelerar a transição de parcerias de Portugal para países como China, Brasil ou Turquia, isolando os interesses comerciais portugueses que dependem do orçamento de Estado angolano.
- O “Fim do Pragmatismo” e o Dilema dos Empresários em Angola
- A possibilidade de uma vitória de André Ventura nas presidenciais portuguesas não é apenas um fenómeno eleitoral; é um sismo que ameaça derrubar as fundações do pragmatismo diplomático entre Lisboa e Luanda. Durante décadas, as relações luso-angolanas assentaram numa “pax económica”: Portugal evitava críticas à gestão do MPLA em troca de segurança para os seus investimentos e exportações.
- O Medo da Retaliação
- Para o empresariado português radicado em Luanda, o discurso de Ventura é visto com uma mistura de secreta simpatia e profundo temor. Se, por um lado, muitos empresários partilham da frustração com a falta de transparência e os atrasos nos pagamentos do Estado angolano, por outro, sabem que Angola é um mercado de “memória longa”.
- Se Lisboa endurecer o discurso sobre a corrupção e os nomes citados pelo Agita News — como os grupos Omatapalo ou as ligações a Edeltrudes Costa — a resposta de João Lourenço poderá ser económica. Em Luanda, o receio é que as empresas portuguesas passem a ser preteridas em favor de concorrentes que não questionam a política interna angolana.
- A Fissura no Bloco de Apoio
- O fato de os serviços de inteligência angolanos, sob o comando do General Garcia Miala, estarem atentos aos votos em Luanda revela que o regime do MPLA percebeu que a sua “retaguarda” em Portugal está a desmoronar-se. O apoio de muitos expatriados portugueses a Ventura é um sinal de que a classe trabalhadora e média já não se sente representada pelos acordos de cúpula entre as elites de ambos os países.
- Conclusão: Uma Rutura Inevitável?
- Estamos perante o fim de uma era. Se Ventura chegar ao poder, o empresariado português terá de escolher entre:
- A Alinhamento com Lisboa: Arriscando a perda de contratos e a expulsão do mercado angolano.
- O Isolamento: Tentando manter as relações comerciais à margem da política oficial, algo quase impossível num país onde a economia e o Estado são indissociáveis.
- O “choque de realidade” que se avizinha poderá ser o teste final à resiliência das empresas portuguesas, que poderão ver-se apanhadas no fogo cruzado entre uma nova ideologia em Portugal e um regime angolano que não tolera dissidência externa.
4. Mobilidade e Vistos de Trabalho
A questão da imigração é central. Se Ventura dificultar a entrada de angolanos em Portugal:
- Reciprocidade: Luanda dificilmente manteria a facilitação de vistos para empresários e técnicos portugueses.
- Fuga de Talento: Milhares de portugueses que trabalham em Angola poderiam enfrentar obstáculos burocráticos renovados, dificultando a gestão de projetos locais.
Resumo do Impacto Geopolítico
A “doutrina Ventura” para Angola representaria o fim da política de “panos quentes” que tem caracterizado as relações entre o PS/PSD e o MPLA. Para o SINSE e o General Garcia Miala, o perigo não é apenas a retórica, mas a possibilidade de Portugal se tornar uma base ativa de apoio à oposição angolana e de bloqueio financeiro às elites governantes.
